quarta-feira, 5 de novembro de 2008

A Times Square, o coração de Nova York, está em festa. Nos imensos telões exibidos nas fachadas dos edifícios, passam as imagens de Barack Obama – e a multidão aplaude. Aparecem imagens de sua mulher, Michelle, e a multidão aplaude. Aparecem números de apuração nos estados – e a multidão aplaude. As esquinas da 7ª Avenida, da rua 40 até a rua 46, estão apinhadas de gente. Todos assistem o que se passam nos telões. Tiram fotografias. Gritam. Assoviam. Os gritos dançam um balé estranho. Propagam-se em ondas como numa ola num estádio de futebol. Começa um grito de “Obama! Obama!” lá pela rua 42, e a onda vai se desdobrando e subindo pela Times Square. “Obama! Obama!” Parece festa de conquista de Copa do Mundo no Brasil. A exceção é que não há bandeiras sendo agitadas, ou há pouquíssimas, nem gente empoleirada em carroceria de pick-ups ou sentada nas janelas dos automóveis. O resto é igual.
“Eu tinha certeza que desta vez ia acontecer”, diz Leah Taylor, 37 anos, produtora de eventos, moradora de Nova York há dois anos. Ela está na Times Square, maravilhada com a festa popular. Ela é democrata e era eleitora de Hillary Clinton. Sua certeza, portanto, não era de que Obama ganharia, mas de que os democratas “desta vez” ganhariam. Leah Taylor, crescida em Oklahoma, estado historicamente republicano e onde John McCain venceu, e que viveu no Tennessee, também historicamente republicano e onde McCain também venceu, sabe exatamente do que está falando. Ela veste uma camiseta preta, com um imenso desenho de Obama nas cores da bandeira da Jamaica – vermelho, amarelo, verde. Leah Taylor é branca.
Rudolph Jones, 44 anos, está quase paralisado. Ele olha os telões com as imagens da eleição e parece que não acredita. “Não, não, eu confiava, eu sabia que ele venceria”, diz ele, que votou às 7 horas da manhã, e pela primeira vez na sua vida. Faltando uma hora para a meia-noite, resolveu ir para a Times Square festejar a vitória do seu candidato – e fazer questão de espalhar sua profissão. “Eu sou encanador, sou encanador”, diz ele, com um imenso sorriso nos lábios. Sua alegria é uma sátira com “Joe, o encanador”, personagem que o republicano John McCain celebrizou no terceiro e último debate. Joe conversou com Obama no curso da campanha, diz que ficou assustada ao ouvir seus planos tributários e resolveu votar nos republicanos. Rudolph Jones é negro.
Nova York está em festa nesta madrugada. Tem mais gente na rua do que em fins de semana. “O negócio esta noite ficou bom”, diz o motorista de táxi Huttane Younes, 28 anos, cinco nos Estados Unidos. “Espero que seja um sinal do que será o governo de Obama”, torce ele, sempre rindo. Younes é marroquino, vai pedir cidadania americana em breve e, se tudo sair como o planejado, ele já sabe o que fará com seu Green card: “Vou votar. Eu votaria nesse cara. Eu gosto dele”, diz, referindo-se a Obama. “Ele deu alegria para a cidade. Hoje todos os passageiros estão felizes.”
Na Times Square, além de felizes, as pessoas estão atentas e indiferentes aos rápidos pingos de chuva. Elas aplaudem os carros que cruzam as avenidas enquanto buzinam. Às 11h53, num dos imensos telões, uma transmissão da Fox News mostra a calçada em frente a Casa Branca, com uma multidão comemorando a vitória de Obama. A massa na Times Square vai à loucura. Grita, aplaude, assovia. Quatro minutos depois, a multidão ali explode: as imagens de todos os telões exibem Obama entrando no palco em Chicago, onde fará seu discurso da vitória. “Obama! Obama! Obama!”, grita a massa de um lado. “Yes, we can! Yes, we can! Yes, we can!”, grita a massa de outro. Quando Obama diz que a vitória é de todos, brancos e negros, republicanos e democratas, asiáticos, hispânicos, gays etc, a massa vem abaixo. Parece que era o que queria ouvir.
Uma legenda, que passa na base do telão, orienta os que não ouvem o discurso e os estrangeiros que se acotovelam nas ruas. A massa grita, porque apareceu na tela o rosto de Oprah Winfrey, no meio da multidão em Chicago. A massa grita de novo, porque agora apareceu Jesse Jackson, lágrima nos olhos, ele que foi o primeiro negro a tentar a sério ser candidato presidencial pelo partido democrata. Tentou duas vezes, em 1984 e 1988. Não conseguiu. Já passam catorze minutos da meia noite, já é quarta-feira em Nova York, e a massa delira no entroncamento da 7ª Avenida com a rua 43 porque um carro de bombeiros aciona sua estridente buzina, e põe o som no ritmo intercalado das saudações de vitória. A multidão vai à loucura. Às 12h15, Obama encerra seu discurso em Chicago. E a massa na Times Square aplaude, aplaude, aplaude demoradamente.
Sim, pelo menos nesta noite, Nova York está em festa.

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